Pandemia desafia pais, educadores e pessoas com deficiência intelectual

Rafaela Coelho
4 min readMar 31, 2021

Após quase um ano de atendimento remoto, Apaes tentam retomar atividades presenciais

Quem conhece as Associações de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência (Apae) sae a importância da instituição na vida de quem a frequenta. Fabrício Marcelo Ribeiro Matos, assistente administrativo na Apae de Lages, escuta muito que a associação é parte fundamental na vida de quem é ali atendido. No dia 17 de março de 2020, essas pessoas que utilizam suas instalações e serviços tiveram de parar de frequentá-la por conta da pandemia. “Demorou até eles entenderem que não podiam vir, que estava fechada. Em tempos normais, mesmo de férias, já é uma eternidade para eles. Imagina ficar praticamente um ano sem frequentar?”, questiona.

Esse afeto também é compartilhado pelos estudantes das escolas regulares. Adrian da Rosa Conrad, de oito anos, tem síndrome do crescimento acelerado, hiperatividade e autismo. Ele usa os serviços de saúde na Apae de Lages e frequenta o ensino regular na escola municipal Anjo da Guarda. “Ele quer ir de todo jeito para a escola. Diz que não aguenta mais ficar em casa. Sem a vacina, você vai mandar ele para a escola? E se acontecer alguma coisa? Você fica pensando”, diz Thays da Rosa Martins, mãe do Adrian.

Box: O que são as Apaes? Arte: Diogo Medeiros e Rafaela Coelho. Imagens: vecteezy.com

Depois de quase um ano de atividades remotas e tentativas de reaberturas parciais, a Apae de Lages retomou as atividades presenciais no dia 18 de fevereiro deste ano. De acordo com Fabrício, até o fim de fevereiro de 2021, 30% dos matriculados aderiram à modalidade presencial, mas na última semana esse número caiu para 10%. Ele acredita que isso ocorreu pelo aumento dos casos na região.

As atividades remotas conseguiram atender entre 90% e 95% dos matriculados e foram uma maneira de não interromper os atendimentos nem a relação com as famílias. Além dos vídeos e serviços na área da saúde, a Apae manteve contato com as famílias através de doações de alimentos, roupas e máscaras. “A gente conhece bem a realidade dos alunos. Os que tinham mais dificuldades, a gente ia na casa, mandava atividade, entrava em contato pelo telefone para saber o que estava acontecendo”, diz Fabrício.

Acolhimento: Fabrício Ribeiro recebe doação de cestas de doces destinadas às crianças de 0 a 12 anos que frequentam a Apae de Lages. | © Divulgação Apae Lages

Do outro lado da tela

Alexandre, hoje com 28 anos, sempre estudou em escolas regulares e começou a frequentar a Apae de Florianópolis com 16 anos. Em Florianópolis, as atividades da Apae também foram mantidas de maneira não presencial, segundo orientação da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE). Marineide, mãe de Alexandre, afirma que a experiência na instituição foi importante por trazer novas experiências. Segundo ela, o rapaz era sempre ajudado e chegou a ficar “um pouco mimado” na Associação, mas, por outro, ele começou a ajudar seus colegas.

Thays conta que recebeu, através da segunda professora do Adrian, as atividades do ensino remoto. “Ele não queria fazer, ficava bravo, e não fazia”, diz. Para ela, esse momento está sendo bem difícil, pois preferia que seu filho estivesse na escola, onde interagia com colegas, gastava energia, brincava e se distraía. “Enquanto não vem essa vacina, a gente fica insegura, não sabe o que fazer, fica com dois corações.”

Entre tentativas de retorno às atividades, como registrado em outros setores da sociedade, em maio de 2020, a FCEE decretou as normas e protocolos de biossegurança, em que os atendimentos e atividades deveriam acontecer de maneira remota e por meio de vídeos. Cada profissional ficou responsável por preparar exercícios referente às suas áreas: educadores, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas propuseram atividades aos usuários. Alguns desses vídeos foram publicados nas redes sociais da instituição, outros em grupos de mensagens em que os alunos, pais ou responsáveis estavam incluídos.

As atividades passadas virtualmente pelos professores da Apae dependem também dos pais e responsáveis pelos alunos. Marineide sente na pele essa carga de responsabilidades a mais. Em uma dessas atividades a professora pediu para os alunos pesquisarem sobre o coronavírus: “Onde que ele vai pesquisar? Ele não sabe. Então ajudei, entrei no Google, disse pra ele :’oh, procura tal coisa’.” Alexandre sabe mexer no computador, mas possui limitações.

Parte das funções dos professores em sala de aula deve ser feitas pelos pais e responsáveis pelos alunos. “Nesse tipo de coisa, a gente tem que ajudar. Porque o entendimento dele tem um limite. Ele sabe que tem que lavar a mão, ele sabe que tem que passar álcool gel e usar máscara. Mas por que isso tem que ser feito? Até onde ele entende que é um vírus?” Apesar de não saber responder essas questões, Marineide conta que o filho segue as orientações de higienização.

De acordo com o IBGE, 22% da população brasileira têm algum tipo de deficiência. Assim como toda a sociedade, as instituições que atendem essas pessoas tiveram que mudar suas rotinas durante a pandemia. Mas as medidas de prevenção à Covid-19, como o isolamento e distanciamento social, podem ser um problema porque muitas dessas pessoas que dependem do auxílio de cuidadores e de familiares. Para quem apresenta deficiência intelectual, em especial, o ensino remoto apresenta desafios ainda mais particulares.

Originally published at https://zeroufsc.medium.com on March 31, 2021.

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Rafaela Coelho

Comunicadora e Designer gráfico, aplico meu conhecimento para fortalecer a estratégias de comunicação, promovendo o engajamento e a inovação.